Presente Perfeito
É sábado.
E eu aproveito a manhã para organizar algumas das tarefas que tenho previstas para a semana. Já organizei várias coisas aqui por casa e sento-me enfim à secretária. Arrumei pastas, organizei documentos e estou, enfim, a postos para preparar a formação da próxima semana. Folheio uma gramática de inglês à procura de uns exercícios. Paro por uns segundo numa página e sorrio.

Sorrio sempre que vejo o nome deste tempo: present perfect, tempo que pode ser usado para indicar ações que começaram no passado e cujo efeito decorre ainda no presente. Sim, eu sei que é estranho sorri ou achar piada a gramática, mas vá… permitam-me estas coisas. Permitam-me esta correlação de mundos: o da gramática e o do universo onde habito. Permitam-me que, no meio de tanto mundo, de tanto solavanco, de tanto sacolejar, sorria e me sinta acolhida por uma expressão, por um presente perfeito.
Acolhida por um sentimento de satisfação com algumas decisões ou momentos do passado que continuam a acontecer ou produzem efeito ainda no presente. Como ter entrado no mundo da maternidade e navegar – vai para 14 anos – em águas inesperadas e inesquecíveis, que oscilam a cada instante, que revelam mistérios e tesouros e me obrigam a aprender diariamente por tentativa-erro como ser melhor, como ser molde, exemplo ou espelho.
Como ter compreendido e ajustado a bitola das comparações que tanto me magoavam, me abalavam a estrutura.
Como ter-me inscrito em aulas de natação e ter passado a aprender, avançar, resolver medos, ultrapassar dificuldades e aproveitar momentos para refletir.
Como, um dia, ter decidido colocar plantas em diversos vasos no pátio e vê-las agora viçosas sempre que saio de casa.
Coisas diversas e nada relacionadas. Eu sei. Que nada têm a ver com perfeição, dirão vocês. Eu digo-vos que talvez tenham.
Porque é bom sorrir com momentos perfeitos, ainda que…
Tenhamos noção do que nos rodeia, da indignidade de momentos que observamos neste loop de reality show do mundo, da perversidade de alguns, que provoca sofrimento inimaginável a tantos;
Saibamos que temos tantos momentos isentos de perfeição, de falta de atenção, de doçura ou de beleza.
Ainda assim.
Que nos saibamos deslumbrar diariamente pelos presentes (mais ou menos) perfeitos.

