“Abaloemos”
Que é como quem diz "a ver vamos..."
Bem sei que já falei nisto várias vezes e corro o risco de me tornar repetitiva e aborrecida (confesso: eu sei que sou), mas vou voltar ao tema de transições numa idade em que já não se é jovem.
Encontro-me, mais uma vez, nessa situação: de fazer alterações à minha vida profissional numa altura em que os outros, os tais da minha idade, repousam já a desfrutarem dos louros do esforço de um percurso mais ou menos alinhado. Estou, neste momento, a mudar de vida a nível profissional ou, pelo menos, a alterar uma boa parte da minha dinâmica de trabalho.
Não estou só. De cada vez que vou ao LinkedIn, encontro publicações de colegas da minha área que estão a fazer o mesmo que eu. Que arregaçaram as mangas, interpretaram as competências que têm, procuraram oportunidades adequadas às suas valências e tentaram. Vamos seguindo assim. Mudam-se dinâmicas, mas conhecem-se novas realidades e novas formas de trabalhar. Pomo-nos à prova e, provavelmente, ficamos irremediavelmente rendidos à nossa capacidade de resistir e de nos adaptarmos a outros contextos. Aprendemos, absorvemos o mundo como uma esponja, predispomo-nos a fazer e a conquistar e quando damos por nós, nadamos noutras águas que antes nos pareciam mares revoltos ou ondas apenas surfáveis por “McNamaras” desta vida.
Quanto a mim, vou continuando, observando, avançando e achando que consigo agarrar a vida de frente, fazer-lhe frente e chegar ao destino. Ainda assim, tenho dias que se me assoma à cabeça uma ideia muito insistente. Ora deixem ver se consigo explicar: sabem quando dizem que as pessoas… (como é que eu hei-de dizer isto, sem aborrecer ninguém??), ora bem, as pessoas mais desprovidas de inteligência não sabem que o são? E que, por isso, vivem alegremente a achar que está tudo bem e que o mundo acontece como ele é interpretado pela sua cabeça? Tenho muitos dias em que acho que vivo nesse mundo, no mundo das pessoas que poderá não ter muita noção do que é que se passa à sua volta e que, por isso, anda feliz e contente com o que amealha.
Enfim, “abaloemos”*.
A par com todas estas alterações, acontece a vida. A vida que tem várias esferas: a familiar, a das amizades, a do crescimento interior. Nem sempre a acompanhamos como ela merece, esquecemo-nos do cultivo e da atenção necessárias para que floresçam e, quando assim é, acontecem crises inesperadas que nos deixam alerta e com aquela sensação de que, por mais que se tente, a vida continua a ser retratada por aquele equilibrista do circo que vai mandando uns pratos para o ar e os vai apanhando, enquanto se mantém a pedalar num chão que não tem tempo de avaliar. Ainda assim, tenta até à exaustão ou até as palmas anunciarem que chegou o momento de recolher os pratos, receber as palmas, absorver o espírito e parar.
*- que, para quem não sabe, era uma palavra inventada por uma saudosa vizinha e que pela utilização, depois de anos a ouvi-la dizer a palavra, percebi que se trata de um sinónimo de “a ver vamos”.

